segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

ADÉLIA PRADO




       Bucólica Nostálgica


Ao entardecer no mato, a casa entre

bananeiras, pés de manjericão e cravo-santo,

aparece dourada.Dentro dela, agachados,

na porta da rua, sentados no fogão, ou aí mesmo,

rápidos como se fossem ao Êxodo, comem

feijão com arroz, taioba, ora-pro-nobis,

muitas vezes abóbora.

Depois, café na canequinha e pito.

O que um homem precisa pra falar,

entre enxada e sono: Louvado seja Deus!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009




Samba do Café

Composição: Vinicius de Moraes / Baden Powell

Para fazer um bom café, meu bem
Como se faz, lá no Brasil
Precisa pôr tudo a ferver, meu bem
Como se põe, lá no Brasil

Uma frutinha vermelha
Que as moças colhem no pé
E quando é bem torradinho
Fica pretinho e cheiroso

Como ele é, lá no Brasil
Como ele é, lá no Brasil
Para fazer um bom café, meu bem
Como se faz, lá no Brasil

Precisa ter um bom café, também
Como se tem, lá no Brasil
Tem de ser forte, como o bem
Que a gente tem pelo Brasil

Tem de ser doce, como o amor
Que a gente tem pelo Brasil
Você, seu moço estrangeiro
Só põe açúcar se quer

Mas sendo um bom brasileiro
O seu café vai ser doce
Como se fosse um carinho
O seu café vai ser doce

Como se fosse um beijinho
De uma mulher
Que faz um bom café
Lá no Brasil! Lá no Brasil!

A poesia do café

S. M.

O violeiro quis falar sobre o café e se queixa de não ter encontrado a linguagem da poesia. Não tem razão o violeiro, embora no seu desejo de tudo abarcar, por vezes tenha esquecido a música sem a qual não há poesia, ou tenha descambado para a descrição rimada que tampouco é poesia.
Saulo Ramos (Café: a poesia da terra e das enxadas) é o primeiro poeta nosso a buscar inspiração exclusivamente no produto mais nobre de sua terra. Na França canta-se o vinho e o trigo, canta-se o gado nas coxilhas, canta-se o carvão na Inglaterra, a máquina nos Estados Unidos, mas nós nunca olhamos para a realidade de nosso país e continuamos a ignorar o rico tema do café. É verdade que no folclore brasileiro há inúmeras referências ao seu cultivo e aos costumes que criaram nas fazendas pioneiras, os colonos e os próprios fazendeiros. Faltava-nos uma poesia erudita sobre o mesmo assunto.
Para chegar a essa poesia erudita era necessário que ao talento poético se juntasse uma vivência (no sentido nortista de situação e hábitos da vida) de fazenda. O poeta do café teria de ser de descendência tradicionalmente fazendeira, mas precisava também haver conhecido a crise e sentido no próprio destino a presença do seu tema. É esse o caso de Saulo Ramos, o qual quando esparrama os olhos na paisagem sente "muitas gerações na boca e um gosto de terra na garganta". Gosto de terra e da terra do café.
Não sei se andou bem o poeta ao escolher como forma a redondilha e o hendecassílabo. Assim fazendo acompanhou como observa Guilherme de Almeida, "os ritmos naturais de nosso alento" e transformou o seu poema "numa gesta eminentemente popular". Eu veria de preferência o aproveitamento do verso livre que houvera permitido maior matizamento na narrativa, com passagens mais espontânea do inevitável terra-a-terra de certas descrições ao dramático e ao épico de outros momentos. Eu veria de preferência a técnica seguida por um Verhaeren, porquanto o verso livre melhor exprime a luta do homem, com seus desânimos e suas ousadias, e melhor mostra o desenvolver como que sincopado, com ritmos desencontrados da epopéia cafeeira. O verso de sete silabas, é saltitante, rápido demais; o hendecassílabo é solene em excesso. Variando as medidas, obteria o poeta, creio, um ritmo mais nervoso, mais adequado ao seu assunto.
Entretanto, tal como se apresenta, contém o livro imagens felizes e revela indiscutível emoção. Nessa história de
"...outros Fernão Dias,
que tiveram também seus sonhos
verdes"

e que vai da derrubada da mata até o esgotamento da terra, há trechos que são verdadeira poesia:

Árvores descabeladas
com cara de manhã cedo,
cheirando a rio de pasto
coberto de cerração


Há trechos também que lembram as soluções "verde-amarela" e me seduzem menos, embora não se deva excluir do desenvolvimento de um tema, por assim dizer épico, certa retórica mais acessível ao grande publico. Exemplo:

Está verde
O cafezal imenso
parece um grande lenço
cobrindo preguiçosamente os montes
alexandrinos que tem rimas de horizontes

Aprecio mais este Domingo, em ritmo de viola, simples, despretensioso:
Domingo a estrada que vem
da fazenda para cidade

..........
só volta segunda-feira
cambaleando, embriagado,
e só volta porque tem
um encontro com a enxada.


Basílio de Magalhães conta-nos que o primeiro poeta brasileiro que se referiu ao café foi Joaquim de Lameda, por volta de 1846. Seus versos carecem, na realidade, de qualquer interesse. O mesmo se dirá dos poemas que se seguiram, de vários autores, inclusive Ciro Costa e Emílio de Menezes. Mas em Cassiano Ricardo outra é a inspiração, outros os resultados. No livro Martim-Cererê explora-se o tema sob mais de um aspecto e em tom peculiar a mocidade de 22. Ouça-se o final de Moça tomando café... em Paris:

Quedê o sertão daqui?
Lavrador derrubou.
Quedê o lavrador?
Está plantando café
Quedê o café?
Moça bebeu.
Mas a moça onde está?
Está em Paris.
Moça feliz!


Depois de Cassiano, o café cessou de impressionar os poetas. Volta agora a fazê-lo com Saulo Ramos. Por isso cabe aqui uma referência especial, a essa poesia que, apesar de não alcançar (a meu ver) o nível da melhor poesia, não pode ser ignorada, principalmente na terra que quase tudo se deve ao café.

(S. M. "A poesia do café". O Estado de São Paulo. São Paulo, 30 de julho de 1953)

MOÇA TOMANDO CAFÉ




                    (Coffee for Mister Klimt Digital Art by Floriana Barbu)

Num salão de Paris
a linda moça de olhar gris,
toma café.
Moça feliz.

Mas a moça não sabe, por quem é,
que há um mar azul, antes da sua xícara de café,
e que há um navio longo antes do mar azul...
E que antes do navio longo há uma terra do Sul;
e que antes da terra um porto, em contínuo vaivém,
com guindastes roncando na boca do trem
e botando letreiros nas costas do mar...
e antes do porto um trem madrugador
sobe-desce da serra a gritar, sem parar,
nas carretilhas que zumbem de dor...
E antes do serra está o relógio da estação...
Tudo ofegante como um coração
que esta sempre chegando e palpitando assim.
E antes dessa estação se estende o cafezal.
E antes do cafezal está o homem, por fim,
que derrubou sozinho a floresta brutal.
O homem sujo de terra, o lavrador
que dorme rico, a plantação branco de flor,
e acorda pobre no outro dia... (não faz mal)
com a geada negra que queimou o cafezal.


A riqueza é uma noiva, que fazer?
que promete e que falta sem querer...
Chego a vestir-se assim, enfeitada de flor,
na noite branca, que e o seu véu nupcial,
mas vem o sol, queima-lhe o véu,
e a conduz loucamente para o céu
arrancando-a das mãos do lavrador.
Quedê o sertão daqui?
Lavrador derrubou.
Quedê o lavrador?
Está plantando café.
Quedê o café?
Moça bebeu.
Mas a moça, onde está?
Está em Paris.
Moça feliz.


Cassiano Ricardo. Martin Cererê. São Paulo, Nacional, 1936. p. 202-3

quarta-feira, 18 de novembro de 2009


Manuel Bandeira


Momento num Café (Manuel Bandeira)

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.