domingo, 14 de março de 2010

"Déjeuner du matin", Poema de Jacques Prévert

Por sugestão da Fabiana, postaremos aqui o poema Café da Manhã (Déjeuner de Matin) de Jacques Prévert. Quando ouvi pela primeira vez este poema estava na aula francês ministrada pelo prof. Henrique Beltrão da UFC, quem, no momento, nos ensinava o passé composé (que nostalgia!). Mari, Samille, Patrícia, Sophia, Henri... beijos e abraços a todos vocês, onde quer que estejam...

Jacques Prévert. In Poemas. Seleção e tradução de Silviano Santiago.
Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1985.
Escute a seguir este poema narrado por Serge Reggiani:



sábado, 13 de março de 2010

Boas-vindas às novas seguidoras deste Blog


Por meio da comunidade orkutiana Livros & Café, recebi duas gratas surpresas: primeira a participação da blogueira Flávia Lins, autora do espaço ébrio, mas lúcido, Copo de Cachaça; segunda, a rica contribuição de Fabiana Souza que tecla neste endereço: http://biacutia.blogspot.com/. A ambas, dou-lhes minhas boas-vindas, e venham sempre que possível "beber" um poema, uma música, um curta... Sintam-se também à vontade para contribuir com novas postagens.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

ADÉLIA PRADO




       Bucólica Nostálgica


Ao entardecer no mato, a casa entre

bananeiras, pés de manjericão e cravo-santo,

aparece dourada.Dentro dela, agachados,

na porta da rua, sentados no fogão, ou aí mesmo,

rápidos como se fossem ao Êxodo, comem

feijão com arroz, taioba, ora-pro-nobis,

muitas vezes abóbora.

Depois, café na canequinha e pito.

O que um homem precisa pra falar,

entre enxada e sono: Louvado seja Deus!

quinta-feira, 26 de novembro de 2009




Samba do Café

Composição: Vinicius de Moraes / Baden Powell

Para fazer um bom café, meu bem
Como se faz, lá no Brasil
Precisa pôr tudo a ferver, meu bem
Como se põe, lá no Brasil

Uma frutinha vermelha
Que as moças colhem no pé
E quando é bem torradinho
Fica pretinho e cheiroso

Como ele é, lá no Brasil
Como ele é, lá no Brasil
Para fazer um bom café, meu bem
Como se faz, lá no Brasil

Precisa ter um bom café, também
Como se tem, lá no Brasil
Tem de ser forte, como o bem
Que a gente tem pelo Brasil

Tem de ser doce, como o amor
Que a gente tem pelo Brasil
Você, seu moço estrangeiro
Só põe açúcar se quer

Mas sendo um bom brasileiro
O seu café vai ser doce
Como se fosse um carinho
O seu café vai ser doce

Como se fosse um beijinho
De uma mulher
Que faz um bom café
Lá no Brasil! Lá no Brasil!

A poesia do café

S. M.

O violeiro quis falar sobre o café e se queixa de não ter encontrado a linguagem da poesia. Não tem razão o violeiro, embora no seu desejo de tudo abarcar, por vezes tenha esquecido a música sem a qual não há poesia, ou tenha descambado para a descrição rimada que tampouco é poesia.
Saulo Ramos (Café: a poesia da terra e das enxadas) é o primeiro poeta nosso a buscar inspiração exclusivamente no produto mais nobre de sua terra. Na França canta-se o vinho e o trigo, canta-se o gado nas coxilhas, canta-se o carvão na Inglaterra, a máquina nos Estados Unidos, mas nós nunca olhamos para a realidade de nosso país e continuamos a ignorar o rico tema do café. É verdade que no folclore brasileiro há inúmeras referências ao seu cultivo e aos costumes que criaram nas fazendas pioneiras, os colonos e os próprios fazendeiros. Faltava-nos uma poesia erudita sobre o mesmo assunto.
Para chegar a essa poesia erudita era necessário que ao talento poético se juntasse uma vivência (no sentido nortista de situação e hábitos da vida) de fazenda. O poeta do café teria de ser de descendência tradicionalmente fazendeira, mas precisava também haver conhecido a crise e sentido no próprio destino a presença do seu tema. É esse o caso de Saulo Ramos, o qual quando esparrama os olhos na paisagem sente "muitas gerações na boca e um gosto de terra na garganta". Gosto de terra e da terra do café.
Não sei se andou bem o poeta ao escolher como forma a redondilha e o hendecassílabo. Assim fazendo acompanhou como observa Guilherme de Almeida, "os ritmos naturais de nosso alento" e transformou o seu poema "numa gesta eminentemente popular". Eu veria de preferência o aproveitamento do verso livre que houvera permitido maior matizamento na narrativa, com passagens mais espontânea do inevitável terra-a-terra de certas descrições ao dramático e ao épico de outros momentos. Eu veria de preferência a técnica seguida por um Verhaeren, porquanto o verso livre melhor exprime a luta do homem, com seus desânimos e suas ousadias, e melhor mostra o desenvolver como que sincopado, com ritmos desencontrados da epopéia cafeeira. O verso de sete silabas, é saltitante, rápido demais; o hendecassílabo é solene em excesso. Variando as medidas, obteria o poeta, creio, um ritmo mais nervoso, mais adequado ao seu assunto.
Entretanto, tal como se apresenta, contém o livro imagens felizes e revela indiscutível emoção. Nessa história de
"...outros Fernão Dias,
que tiveram também seus sonhos
verdes"

e que vai da derrubada da mata até o esgotamento da terra, há trechos que são verdadeira poesia:

Árvores descabeladas
com cara de manhã cedo,
cheirando a rio de pasto
coberto de cerração


Há trechos também que lembram as soluções "verde-amarela" e me seduzem menos, embora não se deva excluir do desenvolvimento de um tema, por assim dizer épico, certa retórica mais acessível ao grande publico. Exemplo:

Está verde
O cafezal imenso
parece um grande lenço
cobrindo preguiçosamente os montes
alexandrinos que tem rimas de horizontes

Aprecio mais este Domingo, em ritmo de viola, simples, despretensioso:
Domingo a estrada que vem
da fazenda para cidade

..........
só volta segunda-feira
cambaleando, embriagado,
e só volta porque tem
um encontro com a enxada.


Basílio de Magalhães conta-nos que o primeiro poeta brasileiro que se referiu ao café foi Joaquim de Lameda, por volta de 1846. Seus versos carecem, na realidade, de qualquer interesse. O mesmo se dirá dos poemas que se seguiram, de vários autores, inclusive Ciro Costa e Emílio de Menezes. Mas em Cassiano Ricardo outra é a inspiração, outros os resultados. No livro Martim-Cererê explora-se o tema sob mais de um aspecto e em tom peculiar a mocidade de 22. Ouça-se o final de Moça tomando café... em Paris:

Quedê o sertão daqui?
Lavrador derrubou.
Quedê o lavrador?
Está plantando café
Quedê o café?
Moça bebeu.
Mas a moça onde está?
Está em Paris.
Moça feliz!


Depois de Cassiano, o café cessou de impressionar os poetas. Volta agora a fazê-lo com Saulo Ramos. Por isso cabe aqui uma referência especial, a essa poesia que, apesar de não alcançar (a meu ver) o nível da melhor poesia, não pode ser ignorada, principalmente na terra que quase tudo se deve ao café.

(S. M. "A poesia do café". O Estado de São Paulo. São Paulo, 30 de julho de 1953)